18 Março, 2026
A influência de conflitos armados internacionais nos preços da energia elétrica
Com o desencadear do conflito armado na Ucrânia, iniciado a 24 de fevereiro de 2022, ficaram evidentes como decisões geopolíticas com origem a milhares de quilómetros de Portugal podem influenciar de forma direta os preços de energia, cujos aumentos de custos de contexto são imediatamente refletidos nas faturas de eletricidade de milhões de famílias e empresas europeias.
Hoje, com o surgimento de novos conflitos internacionais, a pertinência da pergunta volta à agenda energética europeia: podemos voltar a assistir a uma crise energética semelhante?
O impacto dos conflitos armados na Ucrânia nos preços da energia
O conflito armado na Ucrânia teve efeitos imediatos nos mercados energéticos europeus. Em 2022, os preços da eletricidade atingiram níveis altos históricos, refletindo sobretudo o choque no mercado do gás natural, que continua a ser a principal referência para o preço da eletricidade na Europa, o que reforça a forte ligação entre crises geopolíticas e o mercado elétrico.
Gráfico 1: Evolução do preço médio anual da eletricidade e do gás natural no mercado grossista ibérico – OMIE e MIBGÁS – em Portugal (Para 2020, na ausência de dados relativos ao gás natural para Portugal, foram utilizados valores de referência do mercado espanhol.)
Fonte: Elaboração própria com base em dados do Operador do Mercado Ibérico de Energia (OMIE), de Gás (MIBGÁS) e das Redes Energéticas Nacionais (REN)
Em março de 2022, o preço do gás natural chegou a ultrapassar os 150€/MWh, e o preço da eletricidade atingiu picos superiores a 600€/MWh no mercado grossista, ano em que a dependência de gás natural para produzir energia elétrica foi de quase 60% do consumo nacional conforme se pode inferir no gráfico 2 que retrata a evolução do mix de fontes de energia elétrica para Portugal Continental.
As fontes de energia que influenciam o preço da eletricidade em Portugal
O preço da eletricidade em Portugal resulta de vários fatores, sendo que um dos mais determinantes continua a ser o custo dos recursos energéticos primários utilizados na produção da energia elétrica.
Gráfico 2: Evolução do mix base de sistema em Portugal Continental, por fonte de energia, realçando-se a redução da dependência do gás natural no setor elétrico desde o início do conflito armado na Ucrânia
Fonte: Elaboração própria com base em dados de rotulagem da ERSE
Apesar do crescimento da utilização das energias renováveis, a produção de eletricidade em centrais a gás natural continua a desempenhar um papel estrutural no sistema elétrico português. As centrais de ciclo combinado (turbinas a vapor e turbinas a gás) continuam a ser, em muitos momentos, a tecnologia marginal do sistema elétrico, representando frequentemente mais de 30% da produção em determinados períodos. Isto significa que, mesmo quando uma parte significativa da eletricidade é produzida por fontes renováveis, o preço final pode continuar a ser influenciado pelo custo do gás natural.
É precisamente aqui que os conflitos internacionais entram na equação podendo afetar a produção de petróleo e gás, as rotas marítimas de transporte energético, as infraestruturas energéticas e confiança nos mercados financeiros, sendo o resultado previsível uma maior volatilidade e pressão ascendente sobre os preços da energia.
A resposta europeia à crise energética
Desde 2022, a Europa tem procurado reduzir a vulnerabilidade estrutural associada à dependência energética externa, conforme podemos ver pela alteração do mix de fontes de energia elétrica representado pelo gráfico 2. De entre as principais mudanças destacam-se a diversificação das importações de gás natural, o crescimento acelerado das energias renováveis, o reforço da capacidade de armazenamento e as reformas no desenho do mercado elétrico europeu.
Este conjunto de medidas contribuiu para tornar o sistema energético europeu mais resiliente pós início da guerra na Ucrânia. Uma das grandes lições dessa crise foi perceber que a eletricidade deixou de ser apenas um produto energético, para passar a ser também um ativo estratégico, com implicações económicas, industriais e de segurança nacional.
A transição energética e o futuro da estabilidade dos preços
A transição energética tem sido frequentemente discutida em termos climáticos. Os países com maior capacidade de produção renovável, maior capacidade de armazenamento de energia e melhores interligações elétricas tendem a ser menos vulneráveis a choques externos.
A eletrificação da economia, aliada ao crescimento das energias renováveis, poderá contribuir para reduzir progressivamente a exposição do sistema energético europeu à volatilidade dos combustíveis fósseis e às tensões geopolíticas que frequentemente os acompanham.
Os conflitos internacionais não determinam, por si só, o preço da eletricidade, mas influenciam profundamente o funcionamento dos mercados energéticos globais.
A crise energética desencadeada pela guerra na Ucrânia está a mostrar até que ponto a geopolítica pode afetar o setor energético europeu. No entanto, os conflitos atuais não apresentam necessariamente o mesmo potencial disruptivo, mas recordam uma realidade essencial: energia e estabilidade internacional estão profundamente ligadas.
Num sistema energético cada vez mais eletrificado e interdependente, compreender essa relação será fundamental para antecipar riscos, tomar decisões informadas e garantir maior estabilidade no preço da energia.
Joana Bastos
Strategy & Business Development Hype7
Referências:
Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE). Rotulagem de energia elétrica e garantias de origem.
European Network of Transmission System Operators for Electricity (ENTSO-E). Dados europeus de produção e preços de eletricidade.
Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG). Estatísticas rápidas das energias renováveis em Portugal.
Mercado Ibérico de Gás (MIBGÁS). Dados históricos de preços do gás natural no mercado ibérico.
Operador do Mercado Ibérico de Energia (OMIE). Dados históricos do mercado diário de eletricidade.
Redes Energéticas Nacionais (REN). Dados do sistema elétrico nacional e balanço energético.