20 Fevereiro, 2026
A flexibilidade já não é uma opção. É uma vantagem competitiva
Num sistema elétrico cada vez mais complexo, volátil e pressionado pela transição energética, a competitividade das empresas deixou de depender apenas da eficiência produtiva. Hoje, depende também da forma como consomem energia.
A eletrificação acelerada da economia, a integração massiva de fontes renováveis intermitentes e a crescente dinâmica dos preços obrigam a uma mudança de paradigma: já não basta produzir mais energia. É preciso consumir melhor.
Neste contexto, a flexibilidade do consumo ganha um papel central. Ajustar o momento em que se consome energia às condições do sistema, aos preços, à produção renovável e às necessidades da rede deixou de ser apenas uma questão técnica. Tornou-se numa ferramenta estratégica de gestão.
No artigo publicado no Jornal Económico, João Pina, Sócio Fundador da HYPE7 e Professor Associado da NOVA School of Science and Technology, analisa o papel da Inteligência Artificial como catalisador desta transformação. A IA surge como o elemento que permite transformar dados em decisões e flexibilidade em vantagem competitiva. Porque, num mercado energético cada vez mais exigente, quem consegue adaptar o consumo ganha eficiência, reduz custos e reforça a sua posição no mercado.
Leia o artigo completo sobre O papel da IA na flexibilidade do consumo como fator de competitividade no website do Jornal Económico.
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O papel da IA na flexibilidade do consumo como fator de competitividade
Artigo de João Pina no Jornal Económico
Historicamente, o sistema elétrico foi gerido a partir de soluções do lado da oferta. Quando a procura de energia aumentava, ativava-se mais produção. Este paradigma é hoje insuficiente para responder ao crescimento estrutural desta procura. A eletrificação acelerada da economia, a integração maciça de fontes renováveis de carácter intermitente e a volatilidade dos mercados tornaram evidente que atuar do lado do consumo é tão relevante como expandir a produção de energia.
É neste contexto que o conceito de flexibilidade do consumo, ou seja, do lado da procura, assume um papel nuclear. Mais do que reduzir consumos por via de medidas de eficiência energética, a flexibilidade compreende a capacidade de ajustar o momento ou a quantidade de energia consumida, em função das necessidades do sistema, da disponibilidade de produção renovável ou da variação dos preços.
A Agência Internacional de Energia (AIE) tem sido taxativa relativamente a esta mudança de paradigma. A flexibilidade do consumo é um dos pilares dos sistemas elétricos modernos, não apenas por razões ambientais e de segurança do abastecimento, mas também por configurar um fator de competitividade para as empresas.
A flexibilidade do consumo permite reduzir picos de procura, aliviar constrangimentos na rede e utilizar melhor os ativos já instalados. Segundo a AIE, seria possível, só por esta via, aumentar a eficiência global do sistema elétrico até patamares da ordem de 30%.
Num contexto de preços de energia cada vez mais dinâmicos, em particular no quadro dos contratos indexados, a flexibilidade pode constituir um importante instrumento de gestão financeira. Ajustar os consumos a períodos horários mais favoráveis pode traduzir-se em poupanças anuais relevantes, dispensando investimentos adicionais.
Contudo, apesar de amplamente reconhecido, o potencial da flexibilidade continua francamente subexplorado.
Em tese, muitos processos industriais apresentam margem de flexibilidade. É o caso da refrigeração, da compressão de ar, do carregamento de frotas elétricas ou de outras operações não críticas, que podem amiúde ser deslocadas no tempo sem impacto direto na produção. O desafio reside em usar essa flexibilidade de forma consistente num contexto real de exploração.
Uma instalação industrial pode envolver múltiplos processos, restrições operacionais, prioridades produtivas e perfis de consumo. Decidir quando ligar ou desligar cargas de forma ótima, considerando em simultâneo a variação dos preços de energia, a produção renovável local e as restrições operacionais e limitações dos equipamentos, é um desafio que rapidamente ultrapassa a capacidade de decisão humana.
A utilização da flexibilidade e a sua transformação numa vantagem competitiva dependem, em grande medida, da disponibilidade de sistemas de apoio à decisão capazes de articular múltiplas variáveis e cenários.
É neste enquadramento que a Inteligência Artificial (IA), assente na digitalização das operações, assume um papel determinante.
Por um lado, a aprendizagem automática (machine learning), um dos principais ramos da IA, permite prever os perfis de consumo e de produção. Estas previsões são essenciais para apoiar a tomada de decisões, sobretudo em ambientes de elevada complexidade operacional.
Por outro, a IA disponibiliza algoritmos de otimização capazes de abordar problemas que dificilmente seriam resolvidos por meio de regras fixas ou heurísticas simples. O escalonamento ótimo de cargas, respeitando as restrições operacionais e minimizando os custos energéticos, é um exemplo em que estas estratégias oferecem vantagens claras face a métodos convencionais.
Na prática, a combinação da aprendizagem com a otimização, em sistemas baseados em IA, permite avaliar, em tempo útil, centenas ou milhares de cenários de escalonamento, integrando preços, previsões de produção, perfis de consumo e restrições operacionais, numa escala de análise que excede largamente a capacidade humana.
Não se defende que a IA substitua a decisão humana. Reconhece-se, antes, que a crescente digitalização da cadeia de valor energética, em particular do lado do utilizador final, está a criar as condições para que as decisões de consumo sejam tomadas de forma mais apoiada e informada. A Inteligência Artificial é, assim, uma ferramenta inultrapassável para explorar o potencial de flexibilidade existente na indústria e o traduzir numa vantagem competitiva, com impacto económico tangível, num contexto energético cada vez mais complexo, mas também rico em oportunidades.
João Pina
Sócio fundador Hype7
Professor Associado da NOVA School of Science and Technology