16 Setembro, 2026
Mercado da eletricidade volta a dar sinais de pressão: tarifa regulada sobe em outubro
O mercado da eletricidade mudou significativamente ao longo de 2026. Depois de um início de ano marcado por preços particularmente baixos no mercado grossista, os últimos meses trouxeram uma realidade diferente: preços mais elevados, maior volatilidade e um contexto de aprovisionamento mais exigente.
Agora, essa evolução começa também a refletir-se no mercado regulado. A ERSE anunciou, a 15 de setembro, uma atualização da tarifa de energia aplicada pelo Comercializador de Último Recurso (CUR). A partir de 1 de outubro de 2026, a tarifa de energia aumenta 5 €/MWh, ou seja, 0,005 €/kWh, com repercussão nos preços de energia ativa dos diferentes períodos horários.
Porque é que a ERSE decidiu aumentar a tarifa?
A tarifa de Energia do mercado regulado é monitorizada trimestralmente pela ERSE, tendo em conta a evolução dos custos de aquisição de eletricidade do CUR.
O mecanismo estabelecido para 2026 determina que, quando a previsão desses custos apresenta um desvio igual ou superior a 10 €/MWh, positivo ou negativo, seja efetuado um ajustamento de 5 €/MWh no mesmo sentido.
A atualização da previsão do custo de aquisição do CUR aponta agora para um desvio de +17,59 €/MWh relativamente ao valor implícito nos preços da tarifa de energia em vigor até setembro.
É um dado particularmente relevante porque traduz aquilo que temos vindo a observar no mercado ao longo dos últimos meses: o custo esperado da energia para 2026 ficou significativamente acima do cenário considerado quando as tarifas foram definidas.
Segundo a ERSE, este desvio reflete a tendência de subida dos preços no mercado spot ao longo do ano, num contexto influenciado, em grande parte, pelos efeitos do conflito entre o Irão e os Estados Unidos sobre o preço do gás natural e, durante o terceiro trimestre, por um menor peso das renováveis no total da produção nacional.
O que muda a partir de 1 de outubro?
A atualização corresponde a +0,005 €/kWh no termo de energia e é repercutida nos preços de energia ativa abrangidos pela Diretiva, incluindo os diferentes períodos horários.
Em Portugal continental, a nova tarifa final de energia regulada passa para:
• Tarifa simples BTN (até 2,3 kVA): 0,1677 €/kWh
• Tarifa simples BTN (a partir de 3,45 kVA): 0,1711 €/kWh
• Bi-horária: 0,2045 €/kWh em fora de vazio e 0,1143 €/kWh em vazio
• Tri-horária: 0,2553 €/kWh em ponta, 0,1747 €/kWh em cheias e 0,1143 €/kWh em vazio
Depois de integradas as taxas e impostos, a ERSE estima que a alteração represente, para a maioria dos clientes domésticos do mercado regulado, um aumento de aproximadamente 2,7% na fatura média mensal de eletricidade.
Com esta revisão, a ERSE atualiza também a variação anual dos preços no mercado regulado em 2026: dos 1% inicialmente anunciados para 1,7%.
E quem está no mercado livre?
O aumento de 5 €/MWh não é automaticamente aplicado aos contratos do mercado livre.
No mercado regulado, a tarifa de Energia é definida pela ERSE. No mercado liberalizado, o preço da energia é estabelecido por cada comercializador, de acordo com a sua estratégia de aprovisionamento, estrutura de custos e política comercial. A própria ERSE sublinha que esta atualização não obriga os comercializadores do mercado livre a repercutirem o mesmo aumento. A distinção entre as componentes reguladas e os preços definidos livremente pelos comercializadores é também explicitada pela ERSE.
Isso não significa, contudo, que o mercado livre esteja isolado da evolução dos mercados grossistas. Os preços spot, os mercados de futuros e as estratégias de cobertura das comercializadoras influenciam as condições que estas conseguem apresentar aos consumidores. Quando o custo esperado da energia aumenta, a pressão sobre novas ofertas comerciais tende também a aumentar, embora o momento e a dimensão dessa repercussão dependam de cada comercializador.
De um início de ano barato para um mercado novamente sob pressão
2026 mostrou, em poucos meses, como o contexto energético pode mudar rapidamente.
Depois dos preços particularmente baixos registados no início do ano, o mercado iniciou uma trajetória de subida que se tornou mais evidente ao longo da primavera e do verão.
A decisão agora tomada pela ERSE é uma consequência concreta dessa mudança de contexto: a previsão do custo de aquisição do CUR está 17,59 €/MWh acima daquela que estava incorporada na tarifa. E, de acordo com o mecanismo regulatório definido para 2026, a atualização agora aplicada é de 5€/MWh.
Mais do que olhar apenas para o aumento que entra em vigor em outubro, este dado reforça a importância de acompanhar a evolução do mercado nos próximos meses.