10 Setembro, 2026
Mercado de eletricidade em Portugal: o que marcou agosto de 2026?
Agosto voltou a confirmar a mudança de tendência que se tem vindo a observar no mercado grossista de eletricidade.
Depois dos preços particularmente baixos registados no início do ano, o mercado iniciou uma trajetória de subida a partir da primavera, que se acentuou durante o verão. Em agosto, o preço médio da eletricidade em Portugal atingiu 121,36 €/MWh, o valor mensal mais elevado de 2026 até ao momento.
Ao mesmo tempo, o consumo de eletricidade continuou a crescer e a produção solar voltou a atingir novos máximos. O resultado foi um mês marcado por preços elevados, maior procura e uma forte dependência das importações de eletricidade.
O preço da eletricidade atingiu 121,36€/MWh em agosto
O preço médio mensal passou de 106,98 €/MWh em julho para 121,36 €/MWh em agosto, correspondendo a uma subida de aproximadamente 13,4% num único mês.
A evolução desde o início do ano mostra de forma ainda mais clara a alteração das condições do mercado:
Depois do mínimo registado em fevereiro, o preço aumentou durante seis meses consecutivos. Entre fevereiro e agosto, o valor médio mensal multiplicou-se por mais de onze.
Esta evolução mostra também como um mercado que, durante o primeiro semestre, beneficiou de condições particularmente favoráveis pode mudar rapidamente quando se altera o equilíbrio entre procura, produção renovável, importações e produção térmica.
Agosto de 2026 ficou muito acima do mesmo mês de 2025
A comparação homóloga é particularmente expressiva.
Em agosto de 2025, o preço médio foi de 68,68 €/MWh, enquanto que em agosto de 2026 atingiu 121,36 €/MWh. Isto representa um aumento de aproximadamente 77% num ano.
Também aumentou significativamente a amplitude dos preços registados ao longo do mês. Em agosto de 2026 o preço atingiu um máximo de 268,97 €/MWh, enquanto que o mínimo chegou a valores negativos, de -2,10 €/MWh.
Esta diferença entre máximos e mínimos é importante: mesmo num mês com um preço médio muito elevado, continuaram a existir períodos com preços grossistas muito baixos ou mesmo negativos.
Para consumidores com tarifários indexados, isto reforça a importância do perfil horário de consumo. O preço médio mensal, isoladamente, não determina necessariamente o custo final: a hora a que a eletricidade é consumida pode fazer uma diferença significativa.
O que explica a subida dos preços?
Um dos fatores relevantes foi a combinação entre maior consumo e condições menos favoráveis para algumas tecnologias renováveis. Em agosto, o consumo de eletricidade aumentou 1,2% face ao mesmo mês do ano anterior.
Ao mesmo tempo, as condições meteorológicas foram inferiores à média histórica para a produção eólica e solar: os índices de produtibilidade ficaram em 0,87 na eólica e 0,82 na solar, numa escala em que 1 corresponde à média histórica.
No conjunto do mês, as renováveis asseguraram 52% do consumo nacional, distribuídas principalmente por:
A produção renovável totalizou 2.311 GWh, menos 2,1% do que em agosto de 2025.
Há aqui um dado particularmente interessante: apesar das condições meteorológicas menos favoráveis à produção fotovoltaica, a solar atingiu em agosto um novo máximo de potência, próximo dos 3.850 MW, beneficiando do aumento da capacidade instalada. A produção solar mensal cresceu 8,2% em termos homólogos.
Portugal voltou a depender fortemente das importações
Em agosto, 36% do consumo nacional de eletricidade foi assegurado por energia importada, enquanto a produção renovável representou 52% e a produção não renovável 12%. As importações atingiram ainda um novo máximo de potência, acima dos 5.200 MW, após o recente reforço da interligação com Espanha.
Estes números ajudam a compreender a configuração do sistema durante o mês: apesar de as renováveis terem assegurado mais de metade do consumo e de a produção solar ter continuado a crescer, foi necessário recorrer de forma significativa à importação de eletricidade para satisfazer a procura nacional.
Os Encargos de Regulação subiram para 16,07€/MWh
A subida do mercado diário não foi o único movimento relevante.
Os Encargos de Regulação aumentaram de 14,98 €/MWh em julho para 16,07 €/MWh em agosto, uma subida de aproximadamente 7,3%.
Ainda assim, permanecem bastante abaixo dos valores observados no início do ano, nomeadamente dos 29,42 €/MWh registados em fevereiro.
Esta componente é especialmente relevante para os tarifários indexados cuja fórmula incorpora os custos associados à gestão e regulação do sistema. Por isso, analisar apenas o preço OMIE pode não ser suficiente para estimar corretamente o custo efetivo da energia num contrato indexado.
O que nos diz agosto sobre a evolução do mercado?
Agosto deixa três sinais importantes.
Primeiro, o mercado mudou significativamente face ao início do ano. O período de preços muito reduzidos observado durante o inverno e início da primavera deu lugar a valores bastante superiores durante o verão, culminando, em agosto, no preço médio mensal mais elevado de 2026 até ao momento.
Segundo, o crescimento da capacidade solar, por si só, não é suficiente para garantir preços médios mais baixos. Apesar de a produção solar ter atingido um novo máximo de potência, próximo dos 3.850 MW, as condições meteorológicas foram menos favoráveis à produção eólica e fotovoltaica e 36% do consumo nacional acabou por ser assegurado por importações.
Terceiro, a volatilidade continua a ser uma característica central do mercado. Num mesmo mês coexistiram preços negativos e valores superiores a 250 €/MWh. Para consumidores indexados, isto torna cada vez mais relevante não apenas quanto se consome, mas quando se consome.
Para consumidores com tarifários fixos, as oscilações do mercado grossista não são imediatamente refletidas na fatura, mas influenciam as condições que as comercializadoras conseguem oferecer em novas propostas e renovações.
Agosto reforça, por isso, uma ideia importante: não existe um tarifário universalmente melhor. A escolha entre uma solução fixa ou indexada deve considerar o preço disponível, o perfil horário de consumo, a capacidade de deslocar consumos e o nível de risco que cada consumidor está disposto a assumir.
Na Hype7 continuaremos a acompanhar a evolução do mercado de eletricidade, traduzindo os principais números e alterações do setor de forma simples e útil.
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